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publicado por
GO
•
12:52

CARTA A FÁTIMA
Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...
Luiz Pacheco
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comentários
Excelente selecção. Viva a liberdade de pensamente e acção. Viva a vida como ela tem que ser. Viva a irresponsabilidade e a libertinagem! Viva o Pacheco! Viva!
Bem, GO. Tu fazes-te, miúdo. O Pacheco era um proxeneta da sua sua própria liberdade e é ainda hoje tão incompreendido que os que gostam dele dizem bem do libertino. Libertino era o Bocage! O Pacheco era livre. Era-nos livre. Somos livres? Nem sequer libertinos...