13.11.06

Imagens

publicado por GO

Nas vésperas de uma visita nunca concretizada a uma exposição do World Press Photo, confessaram-me a admiração pelo projecto, “ainda que só a desgraça fosse premiada”. Ficou por esclarecer se a observação era uma advertência moral ou se se tratava de uma provocação jornalística.

Depois de ver a exposição deste ano, e após viajar por um mundo que nem sempre quero acreditar que é o meu, relembrei a observação. Apesar das belíssimas imagens que pairam para lá de catástrofes, revoluções, explosões ou doenças, as fotografias mais marcantes são naturalmente as que retratam “a desgraça”. Mas penso tratar-se de um dos mais nobre actos de humanização da imagem: é suster um fragmento dessa “desgraça”, colocá-lo perante o olhar e esperar que o estômago ceda ao nó. A sensibilização é a última esperança para esse instante de “desgraça”.

World Press Photo avulso:

























Fotógrafos (por ordem): Ben Curtis; David Guttenfelder; Rodrigo Abd; John Mabanglo; Kieran Dodds; Pieter Hugo; Christopher J. Capozziello; Paolo Pellegrin; David Høgsholt; Massimo Mastrorillo; Lucian Read; Edmond Terakopian; Finbarr O’Reilly.

3 comentários

Joao disse...

A esperança do nó no estômago é legitima mas a prova de que ele não existe são as exposições anuais do WPP.
Ainda não percebi, mas gostava de saber a tua opinião. Achas que há uma vontade dos fotógrafos de alerta para as tragédias ou simplesmente a desgraça é estética?

GO disse...

Tens que lhes perguntar. Eu, enquanto espectador, sinto o nó, independentemente dos pressupostos que os levaram a tirar a fotografia. Sou, portanto, uma conquista da arte deles.

Anónimo disse...

Vou-me meter na conversa e dizer que ao ver estas fotografias também eu sinto um nó na garganta e é o grito que cada uma delas encerra que me faz conferir-lhes significado e importância. Se bem que seja uma boa questão. A desgraça alheia traz consigo algo quase irracional que nos cativa porque simultaneamente nos transmite uma certa tranquilidade: porque quem vê a fotografia (e quem a tira) está do outro lado da câmera.